Ler e morrer é quase igual para certos vivos
A leitura é um acerto. Leitura tem disso, de leito, onde se deita no rio e se vai. Menos mal, passeamos, vemos lugares onde jamais estivemos e que mesmo não existem. A inexistência tão perfeita e cheia de vida. Fazemos amigos. Podemos falar línguas, caminhar desatentos pela Babilônia com uma boa frase no bolso, uma melhor, inventada. Sentimos os bons cheiros, podemos sentir o insentido, e tocar nas coisas, muito delas vivas, saltar significados, esquecer o pensamento, desatar as velas e seguir sem volta. Não há retorno depois do primeiro, segundo tombo. Levantamo-nos de um parágrafo, uma voz que narra, que nada diz, e ao dizer nada, tanto. Descemos e subimos ladeiras onde a civilização cozinhou o ovo; e a chuva, caímos delas ensopados. O fogo predestinado, e se está à volta com velhos desconhecidos. Nem que seja bom ou que nos desnorteie o excesso, a pouca linha, e as muitas fontes divergentes, mesmo carentes. Atravessamos a idade das penas, onde os horrores repastam no sangue, a...
Deixei as roseiras crestarem no frio
abandonei por três horas o meu sossego
para ficar catucando pragas do jardim
Não telefonei e nem atendi ao telefone
e nem livrei a metade do discurso sobre construção
revi páginas sem motivo e pulei figuras para achar vozes
fora isso às ausências: dormi mais tempo perdendo o início do dia
- que nem me importo
Cansei de ser correto quando entrei na contramão
- foi engano
Atendi ao cobrador; o que é uma perda
Poderia dizer qualquer coisa porque estou cheio
Vejo o som do piano desafinado
o meu batuque esticado
Passar a rever o revisto
retomar o refeito
refazer o feito
Reter a gelatina trêmula
Congelar o frio com o maior calor do desperdício
Gastar o que não existe no caixa
Correr até disparar o coração
Ir pescar sem porquê
Morrer sem tédio
uma alegria triste que é rir sem mostrar a face
E desamar é quase esquecer a vida
correr à toa sem compromisso
como agora
derramar palavras