Um copo de ilusão pode até ser um sono sem sonho
Um copo de ilusão pode até ser um sono sem sonho O guardanapo limpo, arrumado, triângulo deitado no bojo da mesa Falas lentas, vozes mastigadas, tons de riso duro e sério, quietos narizes de legumes cozidos. A borda toda da taça está manchada. A perna à esquerda, contrária da faca foi para a direita. Pés conversam. O submundo entrelaçado. Cotovelos, remos que se debatem nas orelhas. Uns palavrões dançam sobre a vida alheia. “A vizinha comprou um carro pérola.” Pérolas que vieram do mar. “Ela buzina quando chega em casa.” A toalha ressequida tem uma poça de sangue. As pessoas mortas às vezes coagulam. Fosse vinho branco não teriam más lembranças do que no passado, não longe, cometeram.“Comprei ovos, vou fazer feijoada no sábado”; corre a saliva amarela. “Olha, uma coisa não dobra a outra sem a tampinha da garrafa.”Crispam garfos e facas, a contenda segue. “Estava um amor a sua torta de porco, parece gelatina, treme.” O velho sorriso odioso do cinema de hoje faz um corte pá um plan...
Deixei as roseiras crestarem no frio
abandonei por três horas o meu sossego
para ficar catucando pragas do jardim
Não telefonei e nem atendi ao telefone
e nem livrei a metade do discurso sobre construção
revi páginas sem motivo e pulei figuras para achar vozes
fora isso às ausências: dormi mais tempo perdendo o início do dia
- que nem me importo
Cansei de ser correto quando entrei na contramão
- foi engano
Atendi ao cobrador; o que é uma perda
Poderia dizer qualquer coisa porque estou cheio
Vejo o som do piano desafinado
o meu batuque esticado
Passar a rever o revisto
retomar o refeito
refazer o feito
Reter a gelatina trêmula
Congelar o frio com o maior calor do desperdício
Gastar o que não existe no caixa
Correr até disparar o coração
Ir pescar sem porquê
Morrer sem tédio
uma alegria triste que é rir sem mostrar a face
E desamar é quase esquecer a vida
correr à toa sem compromisso
como agora
derramar palavras