Postagens

DESTAQUES

Perdemos outra vez

  Cheguei em casa antes do algoritmo. Logo em seguida veio me dar de dedo: “quem pensa que é? Quer se achar melhor que os outros que vêm comigo, pensa que pode me driblar, isso que fez pôs em risco outros idiotas iguais que podem acreditar que fez o certo; não fez.” Ficou lá em casa me enchendo; eu queria ver o time perder. Vi como pude. “Não vai abrir o bico? Estou falando com você.” Não dei bola, enganei a hora. Vi o troço, aquele bando em disparada chutando ou tentando levar o planeta para as redes. Vi. Sei lá, os caras pareciam cheios, lotados até as tampas de apostas. E aquela coisa me aporrinhando.  “Muda de canal, isso tem final programado.” Fiquei quieto fingindo que não existia. Hoje em dia nem se pode se iludir, a coisa persiste. No dia seguinte, depois do jogo notavelmente perdido, eliminei o gps. Agora venho para casa sem conexão - e de nenhum tipo. Na caixa de correios um recado: feio, anômalo, fora de moda.

Selecionados

                 A comissão técnica pode ser entendida: Renato, Jair Ventura, Filipe Luiz, Rogério Ceny e Rafael Guanaes. Pode parecer uma simplificação, uma atitude simplificadora. Parece simplista, mas vamos ver que em cada time há um sujeito de passe, de construção, de armação, intuitivo, de montar jogadas, de finalização, alguém que une, promove o ataque, e o de proteção, retaguarda e muito defensor que em um instante faz um inesperado lance que leva à meta, ao gol.           Às vezes, e quase sempre, o simples é simplesmente sofisticado, e o mais que sofisticado aprende da simplicidade. Para simplificar vamos pensar na sofisticação.         Temos gente do PR,    Operário Ferroviário, Ceará, RBB, Juventude, Chap, Coritiba, Atlético, Santos, Grêmio, Inter, Remo.          Fizemos uma ótima escolha e deixamos de lado muitos bons jogadores, e isso porque...

Copa rasa; alturas tortas

  Fiquei dispensado, a madeira pensa, torta, posta fora do rancho das madeiras retas. Muita gente foi dispensada da escola, do trabalho e da vida. O amontoado dos corretos fazem a cerca, e os de fora, tantas vezes desobedientes se espalham, fazem um lume demorado e se tornam cinzas, outros acabam por sustentar tabiques, ficam de arteiros, pensos, e quase sempre tornam-se assoalhos, passarelas, rotas giradas de caminhos, e de estranhos,  aparecem a cada tempo na exposição dos absurdos das diferenças.  Sempre penso no caule como a reta correta que eleva a copa, toda desandada. Devia ser assim, de poder entender a vida da árvore, a nos levar a compreender a Árvore da Vida. Quantas churrasqueiras, fogões, fábricas, serrarias, lareiras, ganham com o fim da picada, do fenomenal final técnico e tecnológico dos escombros, e das cinzas levadas sem nenhuma separação pedagógica e disciplinar para purificar a terra. Arvore os teus dias, seja pau para toda obra, erga o seu galhardo va...

Chapecoense x Santos

  Assisti ao jogo. A defesa não conseguia marcar o meia-esquerda Ítalo, nunca vi de tão rápido. O Danielzinho está no Santos, veio de mala e cuia do Mirassol; tadinho, acha que os nossos catimbeiros são sérios, ajuda muito, prestativo-inocente, busca a bola no quintal. E ele faz um magnífico gol de aproveitamento de falha de defesa da Chape. Depois um chuá do Gabriel Menino, bola difícil em curva na gaveta superior Léo Vieira. Em meio a essa constante posse de bola, com 18 finalizações - horríveis, por sinal, o Estádio Condá, lotado, o time adversário ergueu as mangas: primeiro num pênalti, mais do que claro. O Brazão praticamente abraçou as pernas do atacante, gol - perfeito, bola de um lado, mansinha para a rede, e do outro a ponte sem fim do goleiro se enrolando no ar. Gol de escanteio, e do tipo estrada livre: passes curtos na área e passe no „vazio“ o jogador em velocidade carimba, e logo depois de escanteio, passe maroto na área, chute colocado, outro gol, e outro logo em seg...

Chove toda partida

      Cai o dia molhado. Havia telefonado um par de vezes, veio mostrar o carro. A lata úmida. Brilha o poste. Não quis entrar. Ia preparar um cafezinho. Chovia pouco. Ficamos fora do portão. Tudo bem, querido, vamos entrar. Não posso, vim apenas mostrar. Carro de uma cor entre vermelho e abacate. Bacana, parabéns. Saí da universidade, agora estou livre para o que der e vier. Aquilo me chocou, eu não imaginava. Vamos conversar à beira do fogo. Não posso “temos” compromisso. Uma pena. Pensou bem na sua decisão? Cansei de sala, entende. Comprei isso, bala na agulha fio no buraco. Camelo, céu, atravessar o deserto, quarenta anos de marcha. Entendeu a linguística? Acho que sim. Está chovendo, podíamos falar de teus planos, se quiser. Deixa te dar um abraço. Quanta preocupação, bonito, saudades. Chorei na chuva.            Atravessou o pensamento, estacionou algo entre as orelhas. Está sem chapéu, a água descia lentamente e eu fiquei ali, abismado...

Um copo de ilusão pode até ser um sono sem sonho

  Um copo de ilusão pode até ser um sono sem sonho O guardanapo limpo, arrumado, triângulo deitado no bojo da mesa Falas lentas, vozes mastigadas, tons de riso duro e sério, quietos narizes de legumes cozidos. A borda toda da taça está manchada. A perna à esquerda, contrária da faca foi para a direita. Pés conversam. O submundo entrelaçado. Cotovelos, remos que se debatem nas orelhas. Uns palavrões dançam sobre a vida alheia. “A vizinha comprou um carro pérola.” Pérolas que vieram do mar. “Ela buzina quando chega em casa.” A toalha ressequida tem uma poça de sangue. As pessoas mortas às vezes coagulam. Fosse vinho branco não teriam más lembranças do que no passado, não longe, cometeram.“Comprei ovos, vou fazer feijoada no sábado”; corre a saliva amarela. “Olha, uma coisa não dobra a outra sem a tampinha da garrafa.”Crispam garfos e facas, a contenda segue. “Estava um amor a sua torta de porco, parece gelatina, treme.” O velho sorriso odioso do cinema de hoje faz um corte pá um plan...

Ler e morrer é quase igual para certos vivos

Imagem
  A leitura é um acerto. Leitura tem disso, de leito, onde se deita no rio e se vai. Menos mal, passeamos, vemos lugares onde jamais estivemos e que mesmo não existem. A inexistência tão perfeita e cheia de vida. Fazemos amigos. Podemos falar línguas, caminhar desatentos pela Babilônia com uma boa frase no bolso, uma melhor, inventada. Sentimos os bons cheiros, podemos sentir o insentido, e tocar nas coisas, muito delas vivas, saltar significados, esquecer o pensamento, desatar as velas e seguir sem volta. Não há retorno depois do primeiro, segundo tombo. Levantamo-nos de um parágrafo, uma voz que narra, que nada diz, e ao dizer nada, tanto. Descemos e subimos ladeiras onde a civilização cozinhou o ovo; e a chuva, caímos delas ensopados. O fogo predestinado, e se está à volta com velhos desconhecidos. Nem que seja bom ou que nos desnorteie o excesso, a pouca linha, e as muitas fontes divergentes, mesmo carentes. Atravessamos a idade das penas, onde os horrores repastam no sangue, a...