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Chapecoense x Santos

  Assisti ao jogo. A defesa não conseguia marcar o meia-esquerda Ítalo, nunca vi de tão rápido. O Danielzinho está no Santos, veio de mala e cuia do Mirassol; tadinho, acha que os nossos catimbeiros são sérios, ajuda muito, prestativo-inocente, busca a bola no quintal. E ele faz um magnífico gol de aproveitamento de falha de defesa da Chape. Depois um chuá do Gabriel Menino, bola difícil em curva na gaveta superior Léo Vieira. Em meio a essa constante posse de bola, com 18 finalizações - horríveis, por sinal, o Estádio Condá, lotado, o time adversário ergueu as mangas: primeiro num pênalti, mais do que claro. O Brazão praticamente abraçou as pernas do atacante, gol - perfeito, bola de um lado, mansinha para a rede, e do outro a ponte sem fim do goleiro se enrolando no ar. Gol de escanteio, e do tipo estrada livre: passes curtos na área e passe no „vazio“ o jogador em velocidade carimba, e logo depois de escanteio, passe maroto na área, chute colocado, outro gol, e outro logo em seg...

Chove toda partida

      Cai o dia molhado. Havia telefonado um par de vezes, veio mostrar o carro. A lata úmida. Brilha o poste. Não quis entrar. Ia preparar um cafezinho. Chovia pouco. Ficamos fora do portão. Tudo bem, querido, vamos entrar. Não posso, vim apenas mostrar. Carro de uma cor entre vermelho e abacate. Bacana, parabéns. Saí da universidade, agora estou livre para o que der e vier. Aquilo me chocou, eu não imaginava. Vamos conversar à beira do fogo. Não posso “temos” compromisso. Uma pena. Pensou bem na sua decisão? Cansei de sala, entende. Comprei isso, bala na agulha fio no buraco. Camelo, céu, atravessar o deserto, quarenta anos de marcha. Entendeu a linguística? Acho que sim. Está chovendo, podíamos falar de teus planos, se quiser. Deixa te dar um abraço. Quanta preocupação, bonito, saudades. Chorei na chuva.            Atravessou o pensamento, estacionou algo entre as orelhas. Está sem chapéu, a água descia lentamente e eu fiquei ali, abismado...

Um copo de ilusão pode até ser um sono sem sonho

  Um copo de ilusão pode até ser um sono sem sonho O guardanapo limpo, arrumado, triângulo deitado no bojo da mesa Falas lentas, vozes mastigadas, tons de riso duro e sério, quietos narizes de legumes cozidos. A borda toda da taça está manchada. A perna à esquerda, contrária da faca foi para a direita. Pés conversam. O submundo entrelaçado. Cotovelos, remos que se debatem nas orelhas. Uns palavrões dançam sobre a vida alheia. “A vizinha comprou um carro pérola.” Pérolas que vieram do mar. “Ela buzina quando chega em casa.” A toalha ressequida tem uma poça de sangue. As pessoas mortas às vezes coagulam. Fosse vinho branco não teriam más lembranças do que no passado, não longe, cometeram.“Comprei ovos, vou fazer feijoada no sábado”; corre a saliva amarela. “Olha, uma coisa não dobra a outra sem a tampinha da garrafa.”Crispam garfos e facas, a contenda segue. “Estava um amor a sua torta de porco, parece gelatina, treme.” O velho sorriso odioso do cinema de hoje faz um corte pá um plan...

Ler e morrer é quase igual para certos vivos

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  A leitura é um acerto. Leitura tem disso, de leito, onde se deita no rio e se vai. Menos mal, passeamos, vemos lugares onde jamais estivemos e que mesmo não existem. A inexistência tão perfeita e cheia de vida. Fazemos amigos. Podemos falar línguas, caminhar desatentos pela Babilônia com uma boa frase no bolso, uma melhor, inventada. Sentimos os bons cheiros, podemos sentir o insentido, e tocar nas coisas, muito delas vivas, saltar significados, esquecer o pensamento, desatar as velas e seguir sem volta. Não há retorno depois do primeiro, segundo tombo. Levantamo-nos de um parágrafo, uma voz que narra, que nada diz, e ao dizer nada, tanto. Descemos e subimos ladeiras onde a civilização cozinhou o ovo; e a chuva, caímos delas ensopados. O fogo predestinado, e se está à volta com velhos desconhecidos. Nem que seja bom ou que nos desnorteie o excesso, a pouca linha, e as muitas fontes divergentes, mesmo carentes. Atravessamos a idade das penas, onde os horrores repastam no sangue, a...

Ainda volto para o lugar onde não estive

Eu me lembro. Meu tio. Design da terra. Modelo alemão, e a história disso. Dois carburadores. Meio que um prato para cima e outro virado à breca. Ele dirigia, minha tia regia aquela comunhão, e nós na boa exclusão. A estranha minoria. Um lado eram os legalistas familiares com assuntos do jeito deles. Do outro lado, a expectativa de uma parada e guloseimas como prêmio de bom comportamento. Carro verde. Duas portas. Setenta e pouco. Brasília. Depois tornou-se ex carro. Acho que é assim. Única viagem. A volta para casa. Por que voltar? A gente volta; a vida mesma. Urna quieta de poucos pensamentos, e tudo reina. Queria ter ficado onde não me queriam. Havia lugares lá, onde o cidadão infantil podia rir de dentro para dentro. Ainda volto, amarrado no silêncio, sem espantar palavras, sem olhar demais, sem essa democracia chata que tenho no peito onde não sou número certo. A quantidade menor. De longe, quando me distancio, quando carrego os mais pesados volumes, entro pela porta da frente e v...

Dormir no despertar

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  Ontem dormi cedo, eram quase três e vinte e seis mais. Foi tarde o amanhecer. Fechei na cincuenta e sete, o parágrafo caiu meio repetido com a vinte e sete. Vi por dentro de umas dezoito mil palavras sem despertar. Pouco para quem rasga livros e cobertas, não vejo diferenças. Então fiz a receita, ir ao fogo é o mais complicado, ver as caras, ser visto - coisa. Vão ossos vãos. Pouca carne, e uma ervilha seca entre orelhas. Corre duas quadras sem se jogar e ralar os restos de pele. Aí vai ao alvorecer em temperatura variável para embatumar, fique quase triste para alegrar velhos desconhecidos. Esqueça a arrumação do entendimento. Acrescente uma placa que poucos podem entender: Au nom de votre croyance, a tout les espíritos que vous peut encontre, laissez notre vie en paix. Pode entender que, no forno cerebral será compressible. Isso devia ser duas e dezenove. Levei para a geladeira e aproveitei à mesa das treze e onze, foi quando notei. Faltou a sobremesa que bato agora no le mal. ...

Usar gravata

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Neste colegiado existencial, no grupo escolar das nossas relações, nós temos em primeiro lugar o NÃO, o SIM só será adquirido no jardim infantil de interesses, ganhos e perdas, vantagens, com as humilhações como sagazes, força militar do direito,  a que chamam politica - e uma política instrutiva que segue regulamentos e receitas bélicas - ,dizem ser educativa. Perdemos, mas sobreviveremos. Aprendi num filme ruim, estrangeiro, mas com o pé enfiado na malandragem, na listagem  clichê da forma, na usura do sentimento, do roubo das emoções, que devemos usar gravata, podemos bater num carro de um rico protegido de um grupo de ladrões que se acham livreiros, estão no altar mais elevado da cultura, ou sermos cobrados pelo que não fizemos pela polícia dos inspetores de quarterião, sermos derrotados no imposto, difamados, nesse lugar que não aceita nem mesmo o cidadão na sargeta, onde a arte é uma imposição estética da cópia industrializada do óbvio posto ao público, aqui onde a ignor...