Lustroso no órgão
Ainda tenho desses sapatos de desamarrar de enosar, e engraxar. Ensebar com querosene e anilina. O solado não têm pregos, nem é de couro.. Jornal dentro, secagem no forno leve. Pendurado na flanela. Largo e solto. Esgarçado no jeitão dele. Parece o fuca. Beiço santo, machuca ninguém. Pesadinho no início do andar. Faz pou-pou no pisar-firme. Gasto no esquivo da sola. Vou torto. Ia. Agora pouco vi raspado. Uma pena esse bolo de machucado. Fui ao colégio com ele. Passava na rua pedregosa esvaída no limo. Comprava cachorro-quente com ele. Um tal Otto ia tocar na igreja, o órgão com sei lá de mil tubos, o sapato e eu fomos depois do lustre na flanela. Vesti o paletó emprestado e fui marchando, orgulhoso, o couro derretendo a calçada. Pensava, envergonhado que estava ridículo, e estava. Somente eu e o organista usava aquela farda. Vi lá o público; achava que ninguém iria ao concerto, entre eles os dedos pareciam apontar que o único sujeito desse jeito era eu mesmo, e de sapato estalando...