Lustroso no órgão

 Ainda tenho desses sapatos de desamarrar, de enosar, e engraxar. Ensebar com querosene e anilina. O solado não têm mais os pregos, e porque nem é de couro, perdeu o som. Jornal dentro, secagem no forno leve. Pendurado na flanela. Largo e solto. Esgarçado no jeitão dele. Parece o fuca. Beiço santo, machuca ninguém. Pesadinho no início do andar. Faz pou-pou no pisar-firme. Gasto no esquivo da sola. Vou torto. Ia. Agora pouco, o vi raspado. Uma pena, esse bolo de machucado. Fui ao colégio com ele. Passava na rua pedregosa esvaída no limo. Comprava cachorro-quente com ele.

Um tal Otto ia tocar na igreja, o órgão com sei lá de mil tubos, o sapato e eu fomos depois do lustre na flanela. Vesti o paletó emprestado e fui marchando, orgulhoso, o couro derretendo a calçada.

Pensava, envergonhado que estava ridículo, e estava. Somente eu e o organista usávamos aquela farda. Vi lá o público; achava que ninguém iria ao concerto. Estava entre eles, e os dedos pareciam apontar para o único sujeito desse jeito -  era eu mesmo com os pés enfiados ali; os sapatos estalando. Andava fora das modas; usavam camiseta e quedis, o nome do tênis. Investido no ritual, fiquei estupefato. 

Guardei os sapatos depois que perdi os meus dezesseis anos e ganhei meus últimos. Nunca mais soube de concertos de Bach em órgão. A vila pequena. Órgão fechado, artista desaparecido. Sola nova; casa velha. Sapatos novos. 

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